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A Espiã, de Paulo Coelho

“Seu único crime foi ser uma mulher livre”… só que não.

A frase acima vem estampada na contracapa de A Espiã faz você acreditar que a história, um romance em primeira pessoa baseado em fatos reais, é um manifesto com tendência feminista sobre o quanto uma mulher sofreu por usufruir de sua liberdade mas ó… nada a ver! Mas assim, nada a ver meeeeeeeeeeesmo.

Paulo Coelho - A Espiã

Sinopse capenga da alegria:

A Espiã é baseado na última correspondência de Margaretha Zelle, mais conhecida por seu nome artístico Mata Hari, antes de sua execução na França por espionagem. Sim, ela realmente existiu! Margaretha era uma jovem holandesa que foge de sua vida repleta de abusos e acaba se tornando dançarina em Paris. Mas sua dança exótica a leva a ser uma das figuras mais conhecidas, admiradas e criticadas da época.

Coelho inicia a história nas últimas horas de vida de Mata Hari e os capítulos seguintes recontam sua trajetória como um cronômetro até seu último dia de vida. Essa forma de contar a história funciona perfeitamente: o leitor vai aprendendo aos poucos o que levou um simples dançarina a se envolver com espionagem. Outra coisa legal do livro é que ele mostra algumas referências históricas sem se perder em descrições bobas ou chatas. As informações vão aparecendo quase naturalmente e compondo o cenário sem empacar a narrativa.

Ao final da leitura, a gente fica com uma ideia geral de como foi a vida de Mata Hari, como era a Paris do começo do século 20 e como a histeria da guerra tornou alguns acontecimentos suspeitos em casos dignos de execução.

E aqui acaba a parte boa de A Espiã

Vamos direto ao assunto: o livro simplifica demais a pessoa de Mata Hari.

Simplesmente corta fora toda a complexidade da sua jornada, os desafios que enfrentou e as dificuldades que a levaram a tomar as decisões que a transformaram na figura que a deixou famosa. Tudo isso, me parece, foi feito para conseguir encaixar a Mata Hari de Coelho numa caixinha de “mulher libertina revolucionária” que combinaria bem com o slogan “Seu único crime foi ser uma mulher livre”. O resultado foi uma protagonista superficial e muito distante da figura complexa e fascinante da Mata Hari da vida real.

Uma pesquisa rápida online preenche as lacunas deixadas no texto que, caso trabalhadas, dariam um pano de fundo mais colorido e, talvez, mais interessante à protagonista. Essas ausências, na minha opinião, fizeram de uma mulher que sobreviveu a seu tempo (ênfase na palavra sobreviveu), uma personagem autocentrada e inconsequente, além de vazia de propósito que se mudou para Paris “em busca do sonho americano”. Acho que a história real de Mata Hari teve muito mais sofrimento e superação do que a vibe liberdade sexual e carpe diem da Mata Hari do livro.

Posso estar completamente enganada em relação à intenção do autor? Posso. Vou deixar de falar sobre minhas impressões? Ata

A obra não mostra a transformação de Margaretha Zelle em Mata Hari, não ilustra  o processo e simplesmente pula de um capítulo a outro sem maiores explicações. É claro que, escrevendo um romance histórico baseado em fatos reais com apenas correspondências e registros históricos oficiais como referência, o autor fica limitado mesmo. Mas mesmo assim, o livro não é um documentário, mas sim um história real “romanceada” e, por isso, eu esperava um desenvolvimento de personagem mais elaborado. Não fez justiça à mulher na qual se inspirou.

E tem mais: a obra é em primeira pessoa e isso limita a narrativa. Por exemplo: não é explicado como a prisão de Mata Hari pode ter sido um golpe contra ela (usada como bode expiatório) ou resultado de um erro que ela mesma cometeu. A narração em primeira pessoa torna Mata Hari, alternadamente, ou egoísta ou mal-informada. Além do mais, não acho que o Coelho tenha conseguido alcançar a voz feminina para contar essa história. Algumas vezes eu ficava com a sensação de que era um homem tentando imitar uma mulher falando, sabem como?

Minha conclusão é que a Mata Hari da vida real teve uma vida bem mais interessante que a retratada em A Espiã. Se a diferença entre as duas foi escolha do Paulo Coelho ou da própria Mata Hari ao escrever suas últimas correspondências, não vou descobrir tão cedo porque olha a minha cara de quem vai pesquisar e ler as cartas e documentos de referência… (tudo bem, você não está vendo minha cara agora, mas deu pra entender, né?).

Conseguiu chegar até aqui e ainda quer ler o livro? A edição simples (que é a que comprei) tem na Saraiva, no Submarino, Fnac e Livraria Cultura. Na Saraiva ainda tem uma edição capa dura especial autografada.

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