Resenha de The Summer Prince: um romance distópico no Brasil do futuro

Uou!!! Esse título agarrou seu coração, não agarrou? O meu também! E eu fui quente ler esse distópico young adult porque eu não podia esperar um segundo para ver como a autora imaginou o Brasil pós-apocalíptico.

The Summer Prince de Alaya Dawn Johnson

The Summer Prince (“O Príncipe Estival” ou “O Príncipe de Verão”) é um romance escrito por Alaya Dawn Johnson que se passa no Brasil do futuro após um apocalipse que dizimou todo o planeta. A humanidade se dividiu em várias cidades-estado e Palmares Três, uma pirâmide localizada onde um dia foi Salvador (alôu, Bahia!!!), é onde vive nossa protagonista: June Costa. Em Palmares Três, o Rei Estival (gostaram da minha tradução para “Summer King”) acaba de ser eleito e, no final de seu mandato, ele será morto. June é uma jovem artista que pretende deixar sua marca na cidade após se aproximar do novo Rei e descobrir que ele é um artista como ela.

Ok, eu admito. Essa foi a pior apresentação de livro que eu já escrevi. Nem capenga isso ficou, falta adjetivo para descrever o quanto eu estou confusa quanto ao enredo desse livro. Mas aguenta aí que eu (acho que) vou explicar.

O que esse livro tem de bom

A sociedade hi-tech de The Summer Prince é muito diferente da nossa, em vários aspectos. A autora construiu um mundo totalmente novo para essa obra futurística. Para começar, existe uma monarquia matriarcal mandando na coisa toda. Além disso, a sexualidade não é um tabu. A diversidade também é uma questão importante: é um livro situado fora das locações clichês (EUA, Europa) e tem como protagonistas pessoas “não-brancas”. Isso mesmo, não é uma mocinha loira que se apaixona pelo príncipe de olhos azuis! Outra coisa: o mundo está praticamente destruído, em muitas áreas não se pode simplesmente caminhar à beira da praia por causa da poluição extrema. E aí acabou. Só isso de diferença.

A cidade-estado Palmares Três é dividida em estamentos, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais influentes aos ignorados pelo sistema. Reconheceu algum planeta assim? Hum, seria a Terra?

Outra coisa maravilhosa deste livro? Brasil do futuro + distópico + pós-apocalipse = YES!!!!!!!

A gente que vive reclamando que toda invasão alienígena acontece em Nova York só faltou dar cambalhotas quando ficou sabendo que uma escritora gringa resolveu escolher o nosso país como locação de seu livro. Fala sério! Demais!

 Agora… o que eu não gostei (Pois é, gostei de pouca coisa. Vamos às pauladas!)

Não vou me atrever a dizer “o que o livro tem de ruim”. Eu realmente não sei se poderia classificar o que vou apontar aqui como ruim. Prefiro dizer que essas coisas simplesmente “não ornaram”, sabe como é? Vamos lá!

Dá uma olhada na capa. Legal né? É a June Costa e sua árvore de luz. Foi ela mesma quem fez com aplicação de algum produto de uso controlado, a qual ela pretendia usar como sinal de sua personalidade artística e sua revolta.

Não serviu pra nada! Não fez diferença nenhuma essa droga dessa árvore e ela fica repetindo e mimizando sobre ela até dizer chega!

Opa, passou a raiva. Deixa eu me acalmar. Voltemos ao livro: June é uma artista, a melhor artista de Palmares Três. Pelo menos é o que ela pensa, mas no último concurso que ela participou ela ficou entre os últimos colocados. Mas ela ainda acredita que ela é a melhor. Estão sentindo como ela se acha especial?

June passa o livro inteiro tentando mostrar pra todo mundo o quanto ela incrível, usando e abusando de seu melhor amigo Gil e ignorando as questões realmente importantes do livro. Eu passei da metade do livro sem saber qual era o conflito central. Só sei que surgiu um novo concurso artístico e o vencedor ganharia uma bela bolsa de estudos. E qual o problema disso?

1) Qual a importância de uma bolsa de estudos para uma menina rica (ah sim, June faz parte de um dos estamentos mais influentes da sociedade!) enquanto uma luta de classes está prestes a explodir?
2) Por que tanta gente se importa com a vitória de June se ela só pensa em si mesma? June chega a trair um amigo para realizar suas próprias vontades. Compaixão zero a dessa moça.

Outro problema: June tem raiva da própria mãe porque acredita que ela tenha culpa pela morte do pai. Tem alguma parte do livro que evidencia isso ou fica só no achismo da June? Acho que vocês já sabem a resposta!

E por que eu falo tanto da protagonista? E os outros personagens? Bem, The Summer Prince é escrito em primeira pessoa, na voz de June Costa o tempo todo. Ou seja, a gente conhece esse mundo incrível pelos olhos de uma garota pirracenta, mimada, sabichona e que acredita estar cheia de razão. Uma pessoa que só olha para o próprio umbigo e faz de tudo para chamar atenção (e depois chama tudo de ARTE). É impossível ter carisma por ela!

Até dói admitir isso porque eu me esforcei tanto para gostar dela e da história dela. Mas não rolou. Aliás, vou falar de outro aspecto do livro porque já estou ficando com raiva de novo por causa dessa pivete!

A narrativa do livro é densa e, algumas vezes, maçante. Sabe aquela regrinha de “Mostre, não conte” que todo autor vive repetindo e tentando aprender? Pois é… O livro é todo contado. Descrições e mais descrições, passagens extremamente detalhadas que demonstram que a autora pesquisou bastante a cultura brasileira, principalmente a música, para criar um Brasil que fosse ao mesmo tempo futurista e possível.

Errou amargamente!

Para quem conhece mesmo a história e cultura do Brasil, o mundo de The Summer Prince é só uma evolução do estereótipo de sociedade “liberal” que se tem lá fora. Deixa eu contar uma novidade para os gringos que caírem aqui de paraquedas: NÃO, a sociedade brasileira não é um desfile de escola de samba. Pode acreditar em mim, eu sou brasileira e conheço muito bem essa terrinha aqui. A sexualidade ainda é tabu, as pessoas têm dificuldade de aceitar o diferente, temos tradições antigas que ainda fazem sentido para nós,  outras tradições resistem mesmo não fazendo sentido mais, a dança não é tão importante na expressão  da nossa identidade diária (não do jeito que vocês pensam), não existe um zeitgeist tropical (de novo, não do jeito que vocês pensam), o samba não é um estilo musical onipresente, a diversidade de crenas e credos é real e gigantesca, a miscigenação (em todos os seus significados) é intensa… e por aí vai.

A impressão que eu tive foi que autora despejou todo seu conhecimento enciclopédico sobre o Brasil na empolgação de escrever um livro num mundo totalmente novo para a literatura para jovens adultos e todo mundo que trabalhou junto (agente, editores, etc.) acharam o máximo sem sequer saber o que estavam fazendo. Ficou chato, ficou pouco acreditável, e às vezes banalizado. Superficial, Desrespeitoso até.

E mesmo com todo o despejo de informação, algumas partes ficaram sem sentido, algumas perguntas sem resposta. Um comparativo: até o último livro da série Harry Potter, a gente consegue entender várias coisas que foram reveladas aos poucos. The Summer Prince, mesmo sendo um livro único (não é o primeiro volume de uma série) deixa vários buracos que frustram a leitura.

Existem diversas outras questões sobre esse livro que eu poderia inserir aqui (alôu, apropriação cultural!) mas o post ia ficar gigantesco e eu passaria por uma montanha russa de emoções. Oi, não tenho saúde pra isso. Eu sugiro que você dê uma olhada nas resenhas no Goodreads, onde várias outras pessoas apontam o que não gostaram no livro. O Henri do Na Minha Estante também resenhou e teve uma opinião parecida com a minha. Mas e aí, tem resenha positiva? Tem! Muita gente gostou do livro e resenhou também. 😉

De qualquer forma, o que eu queria destacar já está aí em cima e é o suficiente para você verem que eu não gostei do livro como um todo. Tem várias passagens ótimas, é curioso e traz novos ares para a literatura adolescente, mas não foi um bom entretenimento, digamos assim. Fiquei decepcionada pois eu esperava algo no nível de Delírio, da Lauren Oliver. Uma pena…

Quem quiser comprar (vai que né), só tem importado. Ironicamente, esse livro ainda não foi traduzido para o português. Eu consegui o meu na Abebooks. Tem um post explicando como comprar lá aqui.

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3 opiniões sobre “Resenha de The Summer Prince: um romance distópico no Brasil do futuro”

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